Transtorno Afetivo Bipolar

Bode Expiatório

Filed under: Correspondências,Dúvidas | 07/29/2009 (12:50 pm) |

“Desde que conheci meu marido ele muda repentinamente de atitude – foram vários
episódios. Sempre pensei que isso fosse uma “herança” do seu contexto familiar
na infância e por questões emocionais. Há mais de 3 anos eu procurei terapia
para nós mas, ele não conseguiu participar e eu continuei; aos poucos fui
percebendo que eu não sou a culpada pelas reações dele. Contudo, há mais de
2 meses ele saiu de casa dizendo que sua cabeça estava cheia que sabia que
precisava de ajuda, mas, que agora não poderia dar conta. Não consigo enxergar
onde estou nessa relação: estamos ou não separados? Nossa filha entende menos
ainda! Ele se Comunica comigo através de torpedos e quando eu ligo não atende.
Fica algumas noites em casa, me ama enlouquecidamente, mas, no outro dia é como
se fossemos estranhos!!! Depois de ler alguns artigos penso que ele possa sofrer
do transtorno afetivo bipolar. Como faço para falar com ele sobre isso? Ele
foge de conversas, não responde nada, aliás nunca respondeu! Como posso
ajudá-lo? Amo-o muito e preciso que o pai de minha filha possa continuar
convivendo com ela com coerência, afinal, sentimos muito falta da alegria, do
carinho e dedicação dele.”

Eu recebo dois tipos de emails: dos que sofrem de alguma patologia e dos que convivem com alguém que sofre ou pode sofrer.

Nos dois casos minha intenção é reforçar a saúde daquele que me escreve em primeiro lugar.

Quem convive com alguém com problemas está sofrendo também. E muito. Fica a mercê de alterações de humor, agressividade, confusão, angústia pelo outro. E essas pessoas ao focarem o problema do outro, não estão vendo que elas mesmas têm um problema delas para resolver: como posso me proteger? Como posso parar de sofrer com tudo isso? Como posso para de me expor a essa pessoa ou situação? Enfim, como lidar com isso com o mínimo sofrimento?

Existe um termo, bode expiatório, e geralmente o doente diagnosticado (ou não) se torna o tal bode expiatório  e causa dos sofrimentos de todo mundo, da família.

Apontar o bode expiatório é muito mais fácil do que reconhecer as próprias fragilidades porque o bode geralmente é bem colorido e chamativo.

No caso acima, agora falando para a mulher que me escreveu, a única coisa que você pode fazer é conversar e pedir que seu (ex)marido procure um psiquiatra para diagnóstico. Se ele não quiser ir, não há o que fazer por ele. E ele então deve assumir as consequências de não se tratar.

Mas perceba o seu papel no seu sofrimento. O quanto você permite que ele a machuque. O quanto você permite permanecer nessa situação indeterminada de casal. Você pode dar o basta. Resolva suas coisas internamente, dentro de você, independente dele.



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  • Para os que convivem com um Bipolar

    Filed under: Artigos | 07/19/2009 (3:42 pm) |

    Recebo muitos emails e mensagens de gente querendo saber como se comportar com seu parente, namorado(a), marido/esposa, amigo(a) que é bipolar.

    Eu digo que depende da fase que o bipolar está.

    Tem episódios que o bipolar está tão desequilibrado (digo desequilibrado em termos de química cerebral) que ele mesmo não tem consciência de como está se comportando. Tanto faz se está deprimido, psicótico, maníaco. A pessoa pode estar tão fora do equilíbrio que não consegue tomar nenhuma atitude positiva para com ela mesma e pode magoar e ferir os que estão perto. Nessa hora, o doente, na minha opinião, não tem querer. É preciso uma pessoa forte e determinada para tomar a frente do tratamento do bipolar. Levar ao médico, dar a medicação, colocar limites, cobrar resultados. O doente nessa situação está totalmente a mercê do outro que vai trabalhar para seu restabelecimento. E o bipolar nessa hora deve se entregar e confiar. Por isso que é tão importane estar cercado de gente legal e que quer seu bem. Comparando com o diabético, seria a hora que o diabético entra em coma. A pessoa que convive com o bipolar deve saber reconhecer essa fase e tomar as atitudes certas, e não levar as possíveis agressões para o lado pessoal, é a doença falando.

    O que eu percebo é que muita gente abandona o bipolar justamente na hora em que ele mais precisa de ajuda e na hora em que ele não está senhor do que está fazendo.

    A outra fase que eu reconheço são os pequenos desequilíbrios secundários a alguns estímulos extraordinários no dia a dia. O bipolar descompensa mas não chega a se perder totalmente. Geralmente existe medicação para horas como essa, de emergência e passageira e quem está perto precisa ter um pouco mais de paciência e reconhecer a descompensação e ajudar ao retorno do equilibrio. Isso não quer dizer que o bipolar não fique triste ou muito alegre como as outras pessoas, mas ele tem facilidade de descompensar e seu comportamento descompensado é bem diferente de seu comportamento quando em equilíbrio. Novamente, digo que muita gente falha em reconhecer esse desequilíbrio e não entende que é um sintoma, como se tivesse subido a glicemia no sangue do diabético depois de uma refeição especial.

    Então, a dúvida que se coloca é: quando é a doença falando e quando é a pessoa? Se surgiu a dúvida, deve-se entrar em contato com o médico. Para sabermos se é um desequilíbrio, devemos analisar as circunstâncias nas quais ocorreu o comportamento. E constatando-se que foi numa situação anormal, as chances de ser um sintoma de descompensação são grandes. E o bipolar precisa de ajuda.

    A terceira fase do bipolar é quando ele está equilibrado, em harmonia. É nessa hora que as pessoas esquecem que ele pode descompensar dependendo do estímulo, porque ninguém tem a palavra “bipolar” tatuada na testa. O bipolar em equilíbrio não difere de mais ninguém.

    A grande questão para quem convive com um bipolar é se você está disposto a conviver com alguém com uma doença crônica que pode descompensar de vez em quando. Tem gente que prefere esquecer da condição do bipolar assim como não quer ver que aquela outra pessoa é diabética e tem que fazer dieta para o resto da vida.

    Um tempo atrás soube de um caso de uma paciente cuja amiga falou: eu não te procurei mais porque você estava chata. No que a paciente respondeu: eu estava chata porque estava doente e era nessa hora que você deveria ter reconhecido que eu não estava bem e me ajudado.

    Enfim, tem gente que só consegue se relacionar superficialmente com outras pessoas, apenas quando elas estão bem de saúde. Você deve saber seu limite e ver até que ponto quer se envolver com alguém doente.



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  • Intercorrências Agudas em Doenças Crônicas

    Filed under: Artigos | 07/07/2009 (3:13 pm) |

    Eu sempre falo para meus pacientes que a medicação para a patologia crônica vai protegê-los numa faixa de atuação limitada de normalidade de situações.

    Isso vale para o epilético e seu anticonvulsivante, o hipertenso e a medicação antihipertensiva, o diabético e seus hipoglicemiantes e por aí vai.

    No caso do bipolar, a premissa também vale: a pessoa pode estar equilibrada com uma certa medicação que a “protege” na maior parte das ocorrências do dia a dia mas, no caso de um fato extraordinário, a medicação pode vir a ser insuficiente.

    Um exemplo é o caso da febre.

    Todos os pacientes crônicos podem descompensar na vigência de infecções e febre. O corpo está todo alterado combatendo a infecção, o metabolismo está alterado, toda a química cerebral e do organismo como um todo está trabalhando diferente, sob stress.

    Assim, da mesma forma que um diabético pode ter sua glicemia aumentada durante uma infecção, o bipolar pode se ver deprimido, ou maníaco ou com seu componente psicótico ativado. Ou seja, a intercorrência aguda precipita a crise da doença de base.

    Então, o que fazer?

    Primeiro ter consciência que isso pode acontecer. É fundamental saber que em determinadas situações sua doença de base pode se manifestar mesmo estando ela muito bem controlada.

    Segundo, tratar tanto a intercorrência que levou a crise como a crise em si. Sabendo que se trata não de uma descompensação por falha no tratamento original, e sim por somatória de fatores novos e passageiros.

    Terceiro, manter contato com seu médico enquanto a crise durar para que se possa voltar à normalidade o mais rápido possível.

    Muitos pacientes não se dão conta que estão descompensados na vigência de outras intercorrências que os estressa e confundem os sintomas de sua patologia de base com a própria intercorrência. Sabendo qual sintoma corresponde a qual patologia, pode-se lidar melhor com eles.



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