Bode Expiatório
“Desde que conheci meu marido ele muda repentinamente de atitude – foram vários
episódios. Sempre pensei que isso fosse uma “herança” do seu contexto familiar
na infância e por questões emocionais. Há mais de 3 anos eu procurei terapia
para nós mas, ele não conseguiu participar e eu continuei; aos poucos fui
percebendo que eu não sou a culpada pelas reações dele. Contudo, há mais de
2 meses ele saiu de casa dizendo que sua cabeça estava cheia que sabia que
precisava de ajuda, mas, que agora não poderia dar conta. Não consigo enxergar
onde estou nessa relação: estamos ou não separados? Nossa filha entende menos
ainda! Ele se Comunica comigo através de torpedos e quando eu ligo não atende.
Fica algumas noites em casa, me ama enlouquecidamente, mas, no outro dia é como
se fossemos estranhos!!! Depois de ler alguns artigos penso que ele possa sofrer
do transtorno afetivo bipolar. Como faço para falar com ele sobre isso? Ele
foge de conversas, não responde nada, aliás nunca respondeu! Como posso
ajudá-lo? Amo-o muito e preciso que o pai de minha filha possa continuar
convivendo com ela com coerência, afinal, sentimos muito falta da alegria, do
carinho e dedicação dele.”
Eu recebo dois tipos de emails: dos que sofrem de alguma patologia e dos que convivem com alguém que sofre ou pode sofrer.
Nos dois casos minha intenção é reforçar a saúde daquele que me escreve em primeiro lugar.
Quem convive com alguém com problemas está sofrendo também. E muito. Fica a mercê de alterações de humor, agressividade, confusão, angústia pelo outro. E essas pessoas ao focarem o problema do outro, não estão vendo que elas mesmas têm um problema delas para resolver: como posso me proteger? Como posso parar de sofrer com tudo isso? Como posso para de me expor a essa pessoa ou situação? Enfim, como lidar com isso com o mínimo sofrimento?
Existe um termo, bode expiatório, e geralmente o doente diagnosticado (ou não) se torna o tal bode expiatório e causa dos sofrimentos de todo mundo, da família.
Apontar o bode expiatório é muito mais fácil do que reconhecer as próprias fragilidades porque o bode geralmente é bem colorido e chamativo.
No caso acima, agora falando para a mulher que me escreveu, a única coisa que você pode fazer é conversar e pedir que seu (ex)marido procure um psiquiatra para diagnóstico. Se ele não quiser ir, não há o que fazer por ele. E ele então deve assumir as consequências de não se tratar.
Mas perceba o seu papel no seu sofrimento. O quanto você permite que ele a machuque. O quanto você permite permanecer nessa situação indeterminada de casal. Você pode dar o basta. Resolva suas coisas internamente, dentro de você, independente dele.
